FernandoEchevarria

Fernando Echevarría
In memoriam


In memoriam (a meu pai)

Cada dia te víamos andando

mais para dentro de ti mesmo. O tempo

ia ficando parado

à medida que o sangue, mais pequeno,

circulava num espaço

que já era seu próprio esquecimento.

A certa altura, a placidez do campo

lavrava o teu rosto. Que terreno

era então ver-te olhando,

como se o olhar e o fio do centeio

fossem a luz do ano

com nostalgia de parecer eterno.

Foi essa a idade em que haver sido amado

pelo pão, pelo vinho e pelo vento

te trouxe a crestação com que o trabalho

deu tez ao sonho, e honradez e peso

a ficares assim, em paz sentado,

marceneirando teu próprio pensamento.

E, aos poucos, por ele madrugando,

seguiste ainda mais por ele adentro,

de forma que, hoje, nem te vemos.

O halo onde foste minguando é só aceno

de quem se foi pensando

até ao outro lado de si mesmo.


© José-António Moreira 2012