FernandoEchevarria

Fernando Echevarría
Anoiteceu até perto das lágrimas
Com os anos a luz vira mais doce
Alarga-se a velhice
Era perto das lágrimas
Quando morremos


Anoiteceu até perto das lágrimas

Anoiteceu até perto das lágrimas.

Depois, a luz, um momento

suspendeu-se. Ficou água

no seu lume estremecendo.

Depois ainda, a vista consagrada

a estar ali, subindo foi. Foi tempo

que só a si mensurava


e, acaso, a estarmos a anoitecer por dentro.

Enquanto, indubitável, sobe a alma.

E se recolhe à luz do pensamento. 



Com os anos a luz vira a mais doce

Com os anos a luz vira a mais doce. Entrega

a transparência de sabedoria

aos passos graves. À expansão aberta

de outro fundo de luz que inunda a vista.

Ser-se feliz é mais do que átrio. Leva

em si a lucidez de, a cada dia,

ir entrando por uma inteligência

que se despede da melancolia.


Mas não do cunho desse pulso doce

que toma conta de mais luz ainda,

embora a brisa vá trazendo a noite

à refulgente inclinação do dia.

E à da velhice que recruta e move

sua fronteira para lá da linha.. 



Alarga-se a velhice

Alarga-se a velhice. A inteligência

do alargamento coincide

e excede até, levando a subtileza

a dilatar contornos à velhice.

Empolga-se o vagar de ambas. Serena

se desoculta a solidão sensível

onde, extinto o espaço, outro se gera

ajustado somente quanto o exige

o pulso abrupto. Ou, então, estreia

dilatação mais eficaz a fim de,

ao mais fundas se abrirem as fronteiras,

maior vagar dar conta da velhice. 



Era perto das lágrimas

Era perto das lágrimas. A noite

arrepanhava a solidão. Abria

uma altura que quase reconhecia a morte

ou por onde, acaso, ela nos vinha.

Não havia razão. Embora fosse

de não a haver que as lágrimas subiam

em partitura a um amor tão doce

que só a si ele se padecia.

Era perto das lágrimas. Ou de onde

despedir-se rumava da alegria. 



Quando morrermos

Quando morrermos entenderão que um túnel

era, afinal, o nome duma rosa;

descobrirão a terra, os lábios. E a espuma

romperá o pulso da nossa antiga sombra

até verem que dentro era uma rua

claríssima por fora.


© José-António Moreira 2012