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Joaquim Pessoa
Ano comum (dia 51, dia 52, dia 53, dia 54)


Dia 51

Invento hoje para ti este falso poema de amor egípcio:

A tua casa é o meu coração e o teu perfume enche de nostalgia as minhas noites. Pelos meus braços vens caminhando nua, com a doçura da gazela e a brevidade suicida das flores do hibisco.

O meu coração dá abrigo a um grande amor, como a palmeira protege as tâmaras dos ventos do deserto ou a romã se transforma em cofre para guardar os seus rubis.

Não há armadilhas montadas no percurso que te leva à minha cama, e nada será perturbado pelo júbilo de beijar todas as sílabas que a tua boca pronuncia.

És em mim. Estás em mim.

Há-de o meu coração ficar em ruínas e, assim mesmo, defenderá o teu corpo, a tua vontade, e o teu sorriso que tem a envergonhada cor da flor do lótus.

Há-de o meu coração calar-se, mas esse silêncio não impedirá a promessa de uma eterna noite de amor.


Dia 52

Tenho sede quando te beijo. Quando não te beijo tenho sede.


Dia 53

Não sou tão duro como a ágata nem tão convencido como a safira.

Não sou tão exaltado como o topázio nem tão religioso como a ametista.

Não prometo tanto como a olivina nem sou tão imaginativo como a
esmeralda.

Não me sinto tão indeciso como a turquesa nem tão afirmativo como o rubi.

E não tenho, nem a dor existencial da turmalina, nem a estouvada alegria do zircão.

Não possuo os mesmos encantos da água-marinha nem a personalidade única que tem o ónix.

Não sou tão místico como o quartzo nem tão heróico quanto a granada.

E jamais terei a paciência do lápis-Iazúli ou o brilho sábio do diamante. Definitivamente, não poderia nunca ser uma pedra.


Dia 54

Como Walt Whitman, acredito que regressarei à Terra dentro de cinco mil anos. Ou talvez menos.

Não receio afirmar isto. Ou será que as coisas que dizemos hoje nos podem perseguir amanhã?

Venha o que vier, confio em mim como se pode confiar num alarme de alta segurança.

A única frustração da minha vida foi não ter sido eu a descobrir o fogo, ou a inventar o fogo, e não saber sequer agora como reinventá-lo.

Pensar no dia seguinte é restituir a luz ao dia que agora vai esmorecendo.

Os meus sonhos são como animais com medo de cair, agarrados aos ponteiros do relógio, e esqueço-me que nasci com as palavras longe da minha boca e com a missão de as reunir e de lhes dar o mais silencioso de todos os sentidos.

Como Éluard, quero entregar o meu coração ao vazio e o vazio à vida. E aprender como se sobe caindo, para morrer cheio de vida e partilhar essa vida com a morte, ser um morto simpático e preparado para voltar.

De Deus não falo, por agora. Depois, se ainda houver liberdade, contarei todas as conversas que me for possível ter com Ele.

© José-António Moreira 2012