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Joaquim Pessoa
Poema LXII


Poema LXII

`Bora lá! Despe-te dos teus afectos, dos teus medos
e torna-te um guerreiro combatente das desarmonias
com as quais o teu corpo e o teu espírito se revoltam.
A fada do dentinho já não anda por aí, será por isso
que sentes um vazio? Estás ansioso por recomeçar?
Até amanhã, então. Recomeçarás, na realidade,
a partir da realidade. Nada de rituais. Nada
de magia. Nada de transcendências.

Acreditar em ti já é um bom princípio. Se não
houver estrelas, não poderá haver guerra das estrelas.
Tudo é uma questão de probabilidades. E possibilidades.
Como o Vesúvio, que voltará a explodir nos próximos
cem anos. Mas são os pequenos detalhes que
te permitem interpretar melhor o mapa da vida.
Bons e maus, cínicos e generosos, egoístas e solidários,
rodeiam-te e ajudam a moldar o teu carácter, a tua
opinião, o teu comportamento. Terás de saber apenas
do que precisas, o que pretendes para ti. 
Tens que ter vontade de ter vontade.

`Bora lá!, aproxima-te e respira fundo
até oxigenares as tuas expectativas. E parte
para os desertos que ainda temes, consciente
de que o perfil das dunas se modifica a cada hora, mais
lenta mas mais seguramente do que as ondas do mar.
Qualquer que seja o caminho a seguir, deves
estabelecer as tuas prioridades. És excelente a analisar
as situações mas estás permanentemente a adiar
o plano A e a passar ao plano B. Precisas,
talvez de terapia. Tens de conhecer a natureza
do crime para encontrares o seu autor.
Enquanto desconheceres a tua vocação não deves
comemorar. Santos e pecadores são como peixes:
devoram e são devorados e todos são alimento
de terceiros. A desunião do cardume é
a força do armador.

Queres renovar as tuas energias? `Bora lá!
Não há tradição que resista. Entre portas astrais
procurarás os anjos que dançam sob a luz que respiras.
Estão sonâmbulos, acorda-os. Trá-los para a zona
das tuas emoções. O teu coração protege-te.
Cada experiência única é um contrabando. O que
não é possível obter senão de uma forma transgressiva.
As manhãs são uma revolta permanente contra 
a noite, um bom dia às nossas esperanças. Se
te atreves a passar construirás caminho inverso às
ameaças, estarás a dar indicações ao teu futuro.
Se te surpreende a travessia, escreve a tua história,
uma aventura que não acaba pois para isso tem
de haver uma boa razão. Viver é emocionante
se não acertares o ritmo. Se saíres da lista de espera.
E se não souberes o que fazer, faz qualquer coisa.
Faz de conta que sabes. Não há magia nem
segredos. Tem confiança em ti.

`Bora lá!, 
faz uma boa proposta à vida que ela aceita!
Nunca estarás pronto para ser coisa alguma,
mas podes sempre ser o que quiseres, nenhum
projecto é impossível. E nenhum Deus te 
poderá dizer: Estás enganado! 

Não lutes contra a mentira toda, nem 
no prolongamento conseguirias vencer, provavelmente
nem sabes o que sentes mas não batas à porta da
tristeza, há coisas importantes, coisas fantásticas,
coisas impensáveis pelas quais não tens
de pedir desculpa mas animar-te como se tivesses
bilhetes reservados para o espectáculo do século. Não
chegues cedo nem tarde. Chega, simplesmente. Vê 
se estás lá, como uma surpresa, como um aniversariante
que para isso falta à própria festa. Mas faz por
merecer os parabéns!

Não te sintas um problema
para que não te tornes um problema.
O teu coração é um tambor que acompanha
o ritmo do canto da fénix, o seu apelo ao regresso
é a última palavra pacífica antes da ofensa.
Quando contemplas o mar raramente lhe vês o fundo,
assim são aqueles com quem divides a vida,
será então possível confessar a tua paixão, soltar
os pedaços das tuas emoções como se fossem
conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...?

A clepsidra vai trocando a areia, vai trocando as voltas,
nunca será possível perder num sonho a moeda que
achaste na realidade, gasta-a contigo e agarra
o instante que chega como a borboleta, por 
pouco que dure, conserva essa beleza, recorda-a
como recordam os amantes os mais rápidos e íntimos
momentos de felicidade. Alegra o teu coração, 
os teus nervos, os pequeníssimos cristais 
da tua carne.

Quando souberes envelhecer serás um jovem.
É esplêndido o que poderás fazer quando a manhã 
romper e não lamentes nada quando acabar o dia.
O mais importante é sempre o que está para chegar.
Repara como aquela andorinha dirige orações ao vento
que a ajuda a partir e a encontrar o caminho de 
regresso. Mesmo em dificuldade, faz como ela.
A vida é um eterno retorno.

`Bora lá!

in O pouco é para ontem

© José-António Moreira 2012