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Joaquim Pessoa
Poema XLII


Poema XLII

A cidade é um mar de mágoa,
toda a gente traz agarrada ao rosto e aos gestos
uma tristeza grande, uma espécie de
certificado dos tempos que correm, como que
a dizer "eu vivo agora e aqui, eu sou de cá,
por favor não me confundam."
A cidade é um pasmo, um marasmo, um sarcasmo,
presente em cada acto. Já ninguém acredita
naquela cidade que nos envolvia e com a qual nos
envolvíamos, esperando alguma coisa, um raiozinho
de sol, uma nesga de felicidade nem que fosse
por uma hora, nem que fosse uma
ilusão apenas.

Agora já ninguém se ilude.
A cidade já não tem essa magia, esse fulgor
que nos fazia levantar um pouco os pés do chão,
que nos empurrava para conviver nas praças e nos cafés
com uma alegria silenciosa e reconfortante que explodia
nas conversas, nas disputas e nos pontos de vista.
Num tempo de aquecimento global a cidade esfria,
esfria-nos, não nos incendeia, não nos enlouquece,
não nos dispensa sequer atenção e muito menos
nos empresta aquelas imprecisas asas que nos ajudavam
a esquadrilhar avenidas porque não cabiam abertas
nas travessas e nos becos, essas asas das quais
nada já resta senão uma dor nas costas.
Alguns jardins restam, mas que resta dos jardins onde
um suave e rasteiro entusiasmo cacarejava, onde as
flores mais belas eram livros e beijos, e beijos e livros
enchiam de sabedoria aqueles que da ternura
faziam bancos de jardim?

Que é da música misteriosa que abraçava a cidade,
que é dos músicos que esticavam tanto o sonho
que com ele faziam cordas para os instrumentos,
que é das palavras que vestiam e despiam a cidade e nos
despiam e vestiam quando a cidade amachucava a noite?
Que é feito do mar atrás da porta, que é feito do cheiro
das laranjas, e por que é que as estátuas de solidão que
só havia nos molhes estão agora distribuídas pelos
passeios, pelas esquinas, colocadas no metro,
nos autocarros, nos escritórios, nos hotéis,
nos armazéns?

A minha cidade morreu. A tua cidade morreu.
Mataram a cidade. Matámos a cidade. Aquela luz
que a cobria de oiro, que a inundava de cor e de glória,
é agora uma verdade pegajosa que nos sacode e violenta,
uma pedra arrefecida que nos vai transformando
o coração numa casa vazia, uma ampla casa vazia
sem tranquilidade, sem juventude e sem amor.
A cidade, esta cidade, é dos pássaros, dos pombos e dos
cães. E daqueles que discursam e em nada acreditam,
daqueles que nos fazem crer ter as mãos cheias de
estrelas, mas que não passam de níqueis cintilantes
cujo valor facial é o da traição.

A cidade agora habita em nós.
Como um problema a resolver. Como
uma obrigação de nos darmos à realidade destruída,
confuso costume de aldrabar a bondade,
de remediar os estragos da indiferença, de escolher
o melhor de todos os olhares para tentar o que já
não é possível. A cidade cerca-nos de recordações,
é a capital imperturbável de uma existência que tivemos
cheia de sonhos e metáforas. Já não há na cidade
tabacarias nem floristas porque fumar obrigatoriamente
mata e as flores são um fracasso ligado à coragem
que um dia tivemos.

A cidade recorre agora a nós,
a este bando de espectadores impotentes,
de hóspedes malcriados que esperam ainda recompensa
pela inconsciência e pela deserção. E é possível
que ao chamamento em vão respondamos todos com
a aparência, a falsidade e a promiscuidade do costume,
ensaiada noutras conversas, noutras práticas,
noutros gabinetes estrategicamente fora da cidade,
fora da realidade, fora dessa causa que continua
a mesma, a das ideias, a da beleza e a da vontade,
e o que resta da luz e da magia continue a definhar,
onde o amor anda de joelhos à procura de qualquer coisa
que não sabe o que é nem vai nunca encontrar
e que já poucos de nós se lembram
do que pode ser.

© José-António Moreira 2012