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Joaquim Pessoa
Guardar o fogo


POEMA QUADRAGÉSIMO SEXTO

Peço-te. Não pises as violetas que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados desta casa súbita que é o teu corpo devoluto. A noite devora as palavras possíveis, o sofrimento que pulsa em tua boca e torna a minha boca vulnerável. O amor é um nada que a liberta, uma luz que desce dos ombros para o ventre e fecunda as sementes da tua virgindade, essa que faz agora parte de uma dor quase amigável, na lividez do tempo, e que entregas em minhas mãos, beijando-as, tornando-te parte dos meus versos, da minha forma mais profunda de gostar de ti.

Amar-te, é escrever-te. Amar-te é deixar que me toques até ser teu, até que te deites no meu corpo e adormeças inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti. Um "bouquet" de palavras que floriram neste tempo de amor.



POEMA SEXAGÉSIMO SEXTO (excerto)


O amor é um poema. Dói e canta cá dentro. Tem a filosofia das árvores, a lição do mar, os ensinamentos que as aves recolhem quando migram para lá dos desertos, de onde hão-de regressar mais sábias e seguras. O amor é uma causa. Uma luta excessiva com a divindade dos dias e a sua fogueira obscura. Mas também contra o mistério de si mesmo, uma paz que nos dá o cansaço e a loucura infeliz da felicidade, esse primitivo terror dos sinos que tocam como um aviso aos densos nevoeiros súbitos do mar. O amor é uma casa. Erguida com os beijos, com os versos da noite e o gemido das estrelas. Casa cujas paredes vestem o nosso júbilo, a nossa intuição, a nossa vontade, sobretudo o nosso instinto e a nossa sabedoria. Onde se acende e brilha a luz suplicante da pele comprometida dos amantes. O amor é um gigantesco pequeno mistério, uma estranha generosidade que faz com que, quanto mais damos, com mais ficamos para dar. Só o amor é o elixir da juventude. Não esse que sempre se procurou nas indecifráveis fórmulas dos antigos livros de magia e de alquimia, mas aquele que está tão perto de nós que, por vezes o pisamos sem reparar.



POEMA OCTOGÉSIMO QUARTO

A manhã rompe-se com o canto dos pássaros e as flores amarelas pedem justiça ao vento, que saiu de casa feliz, para incendiar nos pensamentos a intimidade do dia. Ganham entusiasmo as minhas mãos, os olhos dizem-me que hoje a felicidade é possível, que é de vida que se alimenta a fogueira do amor. E eu caminho com a sabedoria das coisas que escolheram apaixonar-se pelo mar, essas coisas simples que procuram tornar ainda mais simples cada minuto, cada gesto, cada beijo. Amo as coisas simples porque a sua simplicidade é a de carregar o mundo, grávidas que estão da sua nudez, sabendo que a morte não é mais que uma palavra e o amor são todas as palavras, as doces e temíveis palavras que vestem a vida de brocados e de sedas tão macias, tão raras, tão intensas como a simples e profunda memória do cheiro e do sabor que só tem a pele de uma mulher.

(in Guardar o fogo, Edições Esgotadas, 2013)

© José-António Moreira 2012