165949 155821357886169 868875173 n

Joaquim Pessoa
Ano comum - Dia 349


Ano comum - dia 349

Ontem fui uma luz. Hoje sou uma luz.

Uma luz serei entre as espáduas e no interior

da tua boca, na tua nuca incandescente, no ombro que

a minha língua percorre, faminta e transtornada.

A tua pele é um doce delírio, um fogo em território de paixão,

percorrido à velocidade desta luz. Sobre ela correm

animais assustados, fugindo da voracidade dos meus lábios,

dos meus dentes que mordem a surpresa.

E em cada centímetro do teu corpo beijo árvores e casas

de uma cidade branca onde Deus habita, e onde esvoaça

para o céu da minha boca um coro de anjos transparentes

que exultam aleluias no meu sangue.

O meu corpo é uma pátria de desejo. A tua boca

um poema manuscrito, dito em silêncio à minha boca

que mastiga as tuas palavras de seda e de incêndio.

Beijo a tua voz, e mordo nos teus gemidos as raízes da água,

as raízes do dia, as raízes da música, enquanto

longe dos nossos beijos, tudo grita, tudo se cala gritando.

Só a noite chegará atrasada à festa do teu corpo

no meu corpo. Da tua voz na minha voz. Das tuas mãos

nas minhas mãos. Da tua pele na minha pele.

E nem mesmo ela conseguirá aperceber-se de qual

de nós é o sorriso que quase a ilumina. Porque

as nossas bocas permanecerão

coladas.

(in Ano Comum, Edições Esgotadas, 2013)

© José-António Moreira 2012