JoseCarlosSoares

José Carlos Soares
Anoitece
Não venhas devagar
Não te aproximes tanto
Hoje não me apetece


Anoitece

Anoitece

e sob o céu a tua casa


espera por ruínas. Se morrer

a fina areia

vem tomar a cor

do leito e um verbo


apodrece a jeito

de te ler.



Não venhas devagar

Não venhas devagar

com tanta pressa. Deixa

que derrame a fome

nos quintais e a maldição


suspeite do suave

aroma do delírio. Envia

o que te sobra

ou rouba


o mais pequeno passo

por um fio.



Não te aproximes tanto

Não te aproximes tanto

de uma alma em cinzas. Apenas

arde


ou dá-me

do sol estrelas, escuros

fragmentos da mansidão. So tired


of dying

digo, baixinho, amo-te. Digo-o

pela tua boca.



Hoje não me apetece

Hoje não me apetece

nadar, escrever versos, tirar


partido de uma cama

boa. Vou citar Camões

e mais dois sonhos, ver


um pouco o pouco

que levanta a morte. Sem laços

de semântica, apenas pedaços

da tua alma quântica.


© José-António Moreira 2012