JoseCarlosSoares

José Carlos Soares
Nada nada nada
Era um dia
Estavam junto
Chorava


Nada nada nada

Nada nada nada

na noite nas estrelas

nada


e o vidente

que não é Deus

nem a Palavra


movendo-se no mato, arrastando

o hálito consentido

dos vocábulos. Eis


que me toma o verso a solidão:

nem já no bolso resta

a própria mão.



Era um dia

Era um dia

de pequenas mortes

silenciosas. Uma borboleta


beijava devagar as asas pretas

da antecipação. No pequeno pátio


o coveiro arrefecia.



Estavam junto

Estavam junto

dor e homem, a conversa

embrulhada na manhã. Um pequeno riso


escapava aos rigores da evidência

e na pedra o sol errava

o bicho friíssimo


que passava.



Chorava

Chorava sobre

a luz perdida. Náufrago


andava pelas ruas, a névoa

absorvendo

a própria pele. Tão longo


dia de tão curta

vida, tão leve

a mão


na despedida.

© José-António Moreira 2012