LindaFernandes

Linda Fernandes
Uma carta de amor


Uma carta de amor

Meu amor,


maldito aquele dia de Verão, em que tive a notícia da tua morte.


De repente o Sol fez-se noite e o meu coração, de tão apertado que ficou, quase deixou de bater.


Desculpa só ter percebido nessa hora quanto te amava e quanto a tua perda me faria sofrer ao longo de toda a minha vida.


Ainda hoje e ao fim de tanto tempo, sinto que este amor só foi interrompido e, talvez um dia, não sei bem onde, nos voltaremos a encontrar para retomar o que nos roubaram de viver.


Quantas vezes olhando-me ao espelho, me sinto presa no teu abraço e imagino o teu rosto por trás do meu, sorrindo no horizonte do teu olhar. E é então aí, que percebo sempre que o único que não envelheceu foste tu. E tenho cada vez mais pena!


Recordo a nossa despedida no cais, em que a neblina descia do nosso olhar e tu, ternamente, me soltaste os cabelos, para escondermos os beijos sôfregos que não queríamos que ninguém visse, porque os tempos eram outros e o pudor de mostrar o que sentíamos era muito.

Como se alguém à nossa volta se importasse com isso, uma vez que a despedida para a guerra era de todos e não só de nós.


Abraçavam-te os teus pais, os teus irmãos e tu sem nunca me largares, ali bem junto ao teu peito, ouvindo o soluçar do teu coração, que escondias no sorriso e na promessa de voltares, mesmo que não fosse inteiro.

E é essa imagem que perdura nos meus olhos até hoje.

A despedida que não queríamos que acontecesse.


Depois foram as cartas e os aerogramas onde jurávamos amor eterno, que a ti te davam força e a mim, me faziam crescer rápido por ser ainda tão nova.


Até que um dia a tragédia aconteceu e a notícia espalhou-se mais rápido que o vento.


Ficaria para sempre o incumprimento da tua promessa de voltares aos meus braços.


Voltaste sim, meu amor, mas envolto numa bandeira sangrando de cor e, onde o verde da esperança, já tinha desaparecido.


Houve uma nova despedida e desta vez deixei partir contigo um pedaço de mim, que tornou o meu olhar ainda mais triste.


Demorei tempo para me encontrar e já se gritava liberdade quando voltei de novo a amar, sem saber muito bem a quem amava.


Acabava sempre por sentir que só interromperam o nosso amor e que poderia ser reatado, no tempo, em qualquer momento, mas a realidade era bem diferente.


Quis amar desenfreadamente e perdi amores, amaram-me perdidamente e perdidos ficaram, até que me encontrei, quando os filhos que não tivemos cresceram e me fizeram mais estável.


Mas ainda hoje meu amor, quando penso em escrever uma Carta de Amor, é sempre para ti que escrevo, mesmo sabendo que jamais a lerás e não preciso prometer nada, porque o meu amor por ti será eterno.


© José-António Moreira 2012