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Maria João Saraiva
Cena 9 – A António Ramos Rosa


Cena 9 – Saudades da poesia - A António Ramos Rosa

Um silêncio de alabastro inundava os tectos, o chão, a tarde, os copos, a mesa, a estante com os livros de poesia que tinha trazido na minha mala, comigo – poetas portugueses que sem de mim saberem, tanto sabiam de mim e dos meus ecos, das minhas horas, dos meus fragmentos peregrinos. Poetas portugueses que espalhavam pelo ar, naquelas folhas de papel, os nomes de todas as coisas que não têm morada. Também eles pertenciam ao meu lugar; afinal havia palavras que só eles as sabiam, para abrigar os sentimentos que por vezes apenas são lidos no corpo quando ele vai morrendo. Toquei nos livros, nas suas páginas e nas palavras que eram casas secretas, invisíveis, e pela primeira vez entrei de novo no meu país, na minha terra. Alguns poemas ficaram na minha pele, alguns poetas ficaram na minha pele

 

A bondade límpida, inteira, intocada
contendo cidades delicadas, sublimes, claras
gestos habitados, de raízes puras
multiplicando casas, pontes, tempos  permanentes

 Os ombros cansados pela dor de um mundo surdo e opaco declinam nas mãos
os barcos para os naufrágios,
os cântaros para a secura,

os anjos para os abismos absolutos
As palavras improváveis, a alma com espantos comoventes e próximos
desenham pedaços de amanhã
habitados
entreabertos

Nenhuma voz caída
E a solidão vertida em jarros brancos - lírios da paz
derrama claridade acesa
sobre todos os pedaços de parede que soluçam
É bom ficar, permanecer
é bom o amor,
irreconciliável com todas as tesouras desoladas, cruéis

Há ausências de mármore
que arrefecem a noite branca dos  lamentos sem resposta
Há pessoas mensageiras, quentes,
que lançam para o céu sonhos brandos de madrepérola

 Adormeci, os livros sobre o corpo, a poesia na pele, jarros brancos - lírios da paz - a derramar claridade acesa sobre todos os pedaços de parede que soluçavam. Adormeci, sem solidão, em sonhos brandos de madrepérola.    


© José-António Moreira 2012