MarioDomingos

Mário Domingos
Fala do Astronauta ao Velho do Restelo


Fala do Astronauta ao Velho do Restelo

Não há nada que te diga:

nem sonhos, nem viagens. Aqui começa o insólito mistério

das remotas paisagens.


Mais sombra, menos sombra,

mais um passo no medo, outro na terra:

aqui começa o infernal segredo

do amor e da guerra.


Vencedores, vencidos, não há nada

mais fugaz, estrela cadente.

À noite, um frio que é só frio,

de manhã, um calor que é só quente.


E por dentro disto tudo,

um silêncio milenar:

as pedras que há séculos partiram

estão agora a chegar.


No meu reduto, vigilante, tenso,

acordado ainda quando adormecido

só a custo me alcançam as imagens

do passado perdido.


Sei quem sou: é quanto basta

à sede que me anima e me castiga.

Não há nada, Velho, não há nada

que dos astros te diga.


© José-António Moreira 2012