NaterciaFreire

Natércia Freire
Na penumbra amável


Na penumbra amável

Na penumbra amável, são os bons sorrisos.

— Senhor para aqui, Senhor para além...

Por dentro do peito, guizos e mais guizos.

Solidão que vai, solidão que vem.


Para me acompanhar, para não morrer,

vou encher de amor toda a sala nua,

inundar o espaço de asas e de abraços.

Não te lembras, já, de viver na Lua?


Chega a louca e traz, numa tábua tosca,

escrita a letras finas de corcéis e magas,

uma história em fonte, que descia fosca,

de paisagens lentas de memórias vagas.


Rasgam-se no espaço grades de outros Dias,

abrem-se no céu gritos de outros mares,

— grades, gritos, ondas, longas agonias,

grades, livres, ares.


Mando a louca embora, quero-me deitar.

Vai-se a louca embora, cerra o nevoeiro.

Esqueço-me da Morte, ponho-me a chorar:

- Meu amor primeiro, meu amor primeiro.


© José-António Moreira 2012