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Nuno Dempster
A lua • Do sono • Paraísos


A lua

— Tenho de repensar a minha vida,
disse-me, e acrescentou:
ser-se feliz é não ter esperança.
Lembrei-lhe o sol e o mar
que hoje vejo sozinho nesta praia,
e respondi não há quem viva assim,
ainda que a esperança não exista.
Mas vi-a olhar o céu,
dizendo que sorte é termos a Lua
— rege-nos as marés e o corpo —,
e que amava o seu rosto claro,
um espelho de luz na noite
onde se olhava já sem sonhos.
Nem suspeitou ser isso a esperança,
a lua e os espelhos sem mais nada,
a música que ouvíramos
e o mar além, atrás das dunas.


Do sono

Não era eu hoje no passado,
era eu quando o passado foi tempo.
Buscava na cidade um quarto,
uma pensão daquelas
que me roubou à casa de meus pais
para estudar nalgum ano seguinte,
daqueles que acordado sucederam.

Eram paredes nuas, as que via,
nuas, de tinta velha e fungos,
e eu, sem achar um quarto igual
aos que depois teria, vagueava
na cidade sem luz, sonho sombrio.

Foi quando ela surgiu, jovem como eu.
Tenho uma casa, queres vir?
Uma sala e dois quartos. Um estava ocupado;
o outro, com duas camas. Enfiei-me numa,
a luz era um crepúsculo, sentia frio.
«Posso deitar-me aí?», pediu a medo.
e, quando veio,
olhei-lhe o corpo sobre o meu,
tão jovem, e o seu rosto, e os cabelos.
não vás agora, disse-lhe.
Nem sequer me escutou. A chuva caía
encharcava a paisagem sem choupos,
e quando ela se foi
um negro míssil terra-ar subiu,
serpenteando o rasto em direcção à Lua.
Nem sei o que temia:
se o míssil abatesse a Lua que ela amava,
se ela, ao ir-se, a perdia em meu temor,
se era só esse antigo som
que me ecoa da guerra e me estremece.

Depois senti-a na cama.
Quando a apertei nos braços, adormecida,
recordo que sorri no escuro:
o seu calor vencera-me o receio.
Afinal o tempo era de paz,
e ela tinha chegado ilesa da chuva.

 

Paraísos

Batalhámos, cada um com seu inverno
na infância;
amámos depois, cada um separado
na glória do seu corpo;
percorremos durante muito tempo,
isolados um do outro,
o limbo que a memória esquece;
e agora que sabemos quase tudo,
buscamos paraísos juntos,
e o único que achámos até hoje
foi andar à procura deles.

© José-António Moreira 2012