Paulo Ramalho

Paulo Ramalho
O rio, a enseada e o velho


O rio, a enseada e o velho

Numa certa curva do rio

existe uma palavra secreta

gravada numa árvore.

O rio é vermelho de barro,

largo, imenso de correr.

E os pássaros todos os entardeceres cantam,

indiferentes ao destino das águas.

Ao longe passam nuvens.

Ou na terra a sua sombra

ou no ar uma pureza indizível.

As margens são de lodo,

tem palmeiras, coqueiros    

e algumas névoas meio gastas.

No meio, uma pequena ilha

espera ainda o primeiro Homem.

Peixes há que não conheço

mas de outros até o nome eu inventei.

Crescem lendas sobre este rio

que os pescadores percorrem sem cessar,

crescem lendas sem sentido

e os pescadores são sonhos

e pequenos barcos tecem.

Na margem mais verde uma súbita enseada

revela um porto tranquilo.

Ali, a dormir, está o velho

da cabana mais antiga.

Ao seu lado, em madeira,

uma réplica dos quatro pilares do mundo.

Uma estátua oca.

A tristeza de um cais em ruínas.

Um enorme caldeirão vazio.

Sem estas palavras que a evocam

aquela enseada não é nada.

Mas o rio existe.

E o destino das suas águas é tão remoto

que ninguém o conhece.

O rio passa, passa, passa…


© José-António Moreira 2012