Paulo Ramalho

Paulo Ramalho
Ofício imperfeito


Ofício imperfeito

Atormenta-me a certeza calma e clara

de que jamais concluirei um único poema.

Atormentam-me, mas não me afligem,

as estrelas infinitamente brilhantes

e a luz do sol exacto sobre os dias.

Flor ou pássaro são palavras que me agradam

mas não sei se dão sentido ao silêncio.

São-me gratas todas as formas e cores do amor,

mesmo quando coisa amada e amor possível

se confundem no objecto impossível do desejo.

Gosto das praias que se despem no Outono,

embora me incomode o vento quando não traz gaivotas.

Sinto prazer em imaginar labirintos (sobretudo de versos)

ou perder-me na encruzilhada dos sonhos.

Sei que tudo isto (uma nuvem azul, um sorriso)

fica aquém do poema, fica no limiar da palavra,

mas mesmo assim persisto no ofício de contemplar a esfinge.


© José-António Moreira 2012