RuiMiguelDuarte

Rui Miguel Duarte
Ecce poiema


Ecce poiema

Para mãos que trabalham

sem uma língua treinada

o silêncio pode ser de ouro

ou de chumbo maciço


Porém, esse silêncio ainda fala

ainda está cheio de poemas, cânticos

confessa apreensões ou revela sonhos

de dentro da linfa, das cavidades do osso


Voz que duvida, que fala do que não sabe

que com as mãos se queda a queimar incenso

a vigiar que a chama da menorah perene arda

a oferecer os pães


que escreve febril o que o silêncio apenas sussurra

o que a voz na laringe emudece


Que te diz e conta, Zacarias, a voz que te secou?

Voz que guarda e

burila a sabedoria

que decanta os segredos

confiados pelo anjo do Senhor

esculpidos no ventre da tua mulher

afinados em outra voz, a que clamará no deserto


Mas quanto melhor

não é,

como numa salva de prata uma maçã de ouro servida

é a voz irrompendo

finalmente instruída e madura

que fala

e canta os altos louvores do Senhor


© José-António Moreira 2012